quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Deus é brasileiro mas não sabe onde fica o estado do Pará


Nada diz mais sobre o Estado brasileiro do que o estado a que chegou o Estado brasileiro. Encontra-se afundado num pântano de normalidade. E não se dá conta da falta que lhe faz o anormal. Em 1988, alvorecer dos “novos” tempos, Ulysses Guimarães batizou a atual Constituição de ''cidadã''. Poderia tê-la chamado onírica. Constituição dos sonhos. Ou, por outra, Constituição dos pesadelos. ''...O direito à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária...'' Estamos perpassando o Brasil do artigo 227 da Constituição, onde crianças e adolescentes estão ''a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência e opressão''.
Corta para o Brasil extra-constitucional de Abaetetuba, cidade paraense assentada a 130 km de Belém. De uma das ruas, avista-se a carceragem, um galpão de 80 metros quadrados. Ali, a menina L.A.B (foto), 15 anos, atarracada em seus menos de 1,40 m, corpo mal recoberto pela sainha curta e pela blusinha que prenunciava os seios adolescentes, foi jogada num calabouço junto com três dezenas de homens. O inferno dela durou cerca de 20 dias. Um detalhe confere ao inaceitável um quê de inacreditável. A menina foi aviltada nas dependências de um Estado gerido por uma mulher, Ana Júlia Carepa . Quem a mandou para a cela foi outra mulher, a delegada Flávia Verônica Pereira. A decisão recebeu o endosso de uma terceira mulher, a juíza Clarice Maria de Andrade. "Antes de comer, os presos se serviam dela", lembrou uma moradora. “Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar", aditou outra habitante de Abaetetuba. E por que ninguém fez nada? A tia de um dos presos que dividiram a cela com L.A.B responde: "Medo de morrer. Aqui todo mundo tem medo. Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?"
Espremida por jornalistas, a governadora Ana Júlia (foto) reconheceu que casos do gênero se repetem no Estado “Essa é uma prática lamentável, que, infelizmente, já acontece há algum tempo. Mas é bom tornar tudo isso público, para que toda a sociedade se mobilize e possamos acabar com essas práticas. O sistema de segurança vai investigar com rigor todas as denúncias", disse. Buscava-se freneticamente um demônio, qualquer demônio, para lhe devolver a guarda de todas as culpas. Alguém que possa eximir uma delegada, uma juíza, uma secretária de segurança, uma governadora, um governo inteiro do exame de todo o mal. A começar pelo mais difícil dos exames: o auto-exame. No entanto, Deve-se ao ex-delegado geral da Polícia Civil do Pará, Raimundo Benalussy, afastado ontem do cargo, a descoberta do demônio, esta deidade de mil e uma utilidades. Atende pelas iniciais L.A.B.. Veste saias. Tem 15 anos. Sim, ela mesma. A culpada de o Brasil ter escalado o noticiário internacional como uma nação de selvagens é justamente a vítima da selvageria. Em audiência pública realizada no Senado, o delegado Benalussy declarou que a menina L.A.B. “tem certamente alguma debilidade mental". Por que? Ora, porque "em nenhum momento ela manifestou sua menoridade penal" às autoridades que a trancafiaram na cela com mais de 20 marmanjos.
Cezar Britto, presidente nacional de OAB, estranhou: "Mata-se [o índio] Galdino e dizem 'desculpa, pensei que era um mendigo'. Ataca-se uma empregada doméstica, 'desculpe, pensei que era uma prostituta'. Agora se diz a mesma coisa, 'não sabia que era uma adolescente', como se fosse menor o crime de ter uma mulher sendo estuprada sob os olhos coniventes do aparelho estatal". Quanto a L.A.B., a grande culpada, aguarda pelo resultado dos exames que irão informar se contraiu Aids ou se saiu grávida do cárcere paraense de Abaetetuba. Ela disse ter sido estuprada pelos presos no período em que esteve detida. De concreto, por ora, tem-se apenas que as autoridades do Pará não têm nada a ver com nada.

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